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sábado, 15 de setembro de 2012
A Ponte e a Cerca
Autora: MARILENE MEES PRETTI
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=83413#ixzz1zdp6K3Sh
sexta-feira, 15 de junho de 2012
No silêncio do meu sentir
No silêncio do meu sentir
Murmuravam-me as mariposas, em sorrisos de flores,
Nesta tarde que me acolhe mansamente;
Dizem-me palavras que o vento lhes soprou,
Na estrada perdida da tua ausência,
Falam de abraços que se perderam,
Nos instantes de intranquilidade,
Que o tempo não conseguiu esquecer
E dos beijos reprimidos na ânsia de os receber!
Nesta acalmia dos meus pensamentos
E no silêncio do meu sentir,
Deixo-me levar em voos de alvas nuvens,
Sobrevoando planícies de sensações,
Na avidez do nosso encontro
E quando isso acontecer,
O abraço perdido,
Tornar-se-á alvorada do nosso querer,
No navegar por mares de paixão
E encontrará o nosso porto,
Nas areias das nossas ilusões,
Acariciados pela espuma das ondas
Poema de
José Carlos Moutinho
sábado, 26 de maio de 2012
APRENDER A ESTUDAR - José Carlos Ary dos Santos
Estudar é muito importante, mas pode-se estudar de várias maneiras...
Muitas vezes estudar não é só aprender o que vem nos livros.
Estudar não é só ler nos livros que há nas escolas.
É também aprender a ser livres, sem ideias tolas.
Ler um livro é muito importante, às vezes, urgente.
Mas os livros não são o bastante para a gente ser gente.
É preciso aprender a escrever, mas também a viver, mas também a sonhar.
É preciso aprender a crescer, aprender a estudar.
Aprender a crescer quer dizer:
aprender a estudar, a conhecer os outros, a ajudar os outros, a viver com os outros.
E quem aprende a viver com os outros aprende sempre a viver bem consigo próprio.
Não merecer um castigo é estudar.
Estar contente consigo é estudar.
Aprender a terra, aprender o trigo e ter um amigo também é estudar.
Estudar também é repartir, também é saber dar o que a gente souber dividir para multiplicar.
Estudar é escrever um ditado sem ninguém nos ditar;
e se um erro nos for apontado é sabê-lo emendar.
É preciso, em vez de um tinteiro, ter uma cabeça
que saiba pensar, pois, na escola da vida, primeiro
está saber estudar.
Contar todas as papoilas de um trigal é a mais linda
conta que se pode fazer.
Dizer apenas música, quando se ouve um pássaro,
pode ser a mais bela redacção do mundo...
Estudar é muito
mas pensar é tudo!
(José Carlos Ary dos Santos)
ESCOLA É
... o lugar que se faz amigos.
Não se trata só de prédios, salas, quadros,
Programas, horários, conceitos...
Escola é sobretudo, gente
Gente que trabalha, que estuda
Que alegra, se conhece, se estima.
O Diretor é gente,
O coordenador é gente,
O professor é gente,
O aluno é gente,
Cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
Na medida em que cada um se comporte
Como colega, amigo, irmão.
Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”
Nada de conviver com as pessoas e depois,
Descobrir que não tem amizade a ninguém.
Nada de ser como tijolo que forma a parede,Indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
É também criar laços de amizade,
É criar ambiente de camaradagem;
É conviver, é se “amarrar nela”!
Ora é lógico...
Numa escola assim vai ser fácil!Estudar, trabalhar, crescer,
Fazer amigos, educar-se, ser feliz.
É por aqui que podemos começar a melhorar o mundo.
(Paulo Freire)
sábado, 24 de março de 2012
PAI
O tempo fugiu-me
na inexorável corrente
dos dias
que torna as memórias
difusamente cinzentas
... a memória
insinua-se-me no esquecimento do que esqueço
Mas, Pai, tu não
Tu, nunca!
Passem as correntes
que me doem.Passem os tempos que
me fogem
Passem os momentos que me ignoram.
Passem os ventos que
me gelam e as tempestades que me derrubam
e em ti me
aconchego, em ti adormeço, em ti me liberto,
Como então...em ti
venho ancorar os meus dias no porto do teu peito.
Lembras-te PAI ?
F. Ribeiro
na inexorável corrente
dos dias
que torna as memórias
difusamente cinzentas
... a memória
insinua-se-me no esquecimento do que esqueço
Mas, Pai, tu não
Tu, nunca!
Passem as correntes
que me doem.Passem os tempos que
me fogem
Passem os momentos que me ignoram.
Passem os ventos que
me gelam e as tempestades que me derrubam
e em ti me
aconchego, em ti adormeço, em ti me liberto,
Como então...em ti
venho ancorar os meus dias no porto do teu peito.
Lembras-te PAI ?
F. Ribeiro
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Asas
É voando que sou e recomeço
Como novo ser em cada momento
Do meu voo p’r’além do firmamento,
Sem destino, talvez, e sem regresso.
Eu sou o que já fui, alguém que esqueço,
Porque de mim só resta o pensamento,
Um sopro que é de vida ou de vento,
Pelo espaço infinito que atravesso.
São asas que me fazem, que me talham
E, pelos céus voando, que me espalham,
Que me dão vida mas também destroem,
Porque as asas que tenho concerteza,
São do meu sonho e não da natureza,
As asas que não tenho... como doem!
Eduardo Pinto Basto
in O Lado Alado
Cento e Um Poemas
Entre o Céu e a Terra
Como novo ser em cada momento
Do meu voo p’r’além do firmamento,
Sem destino, talvez, e sem regresso.
Eu sou o que já fui, alguém que esqueço,
Porque de mim só resta o pensamento,
Um sopro que é de vida ou de vento,
Pelo espaço infinito que atravesso.
São asas que me fazem, que me talham
E, pelos céus voando, que me espalham,
Que me dão vida mas também destroem,
Porque as asas que tenho concerteza,
São do meu sonho e não da natureza,
As asas que não tenho... como doem!
Eduardo Pinto Basto
in O Lado Alado
Cento e Um Poemas
Entre o Céu e a Terra
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
A Sereia
A sereia e o pescador
Balata
C'est la sirene,
Qui va chanter
La cantilene,
Qui fait aimer.
Sereia
Viver aqui eu não posso
Nem no vale, nem na serra;
Eu não sou filha da terra,
Eu sou sereia do mar.
Correi, ondas, brandamente,
Correi, vinde me buscar.
Nasci no seio das vagas,
Numa gruta de cristal;
Em colunas de coral
O meu berço se embalou.
Ondas, levai-me convosco,
Que eu desta terra não sou.
O amor criou-me entre pérolas
Sobre fúlgidas areias,
Mago canto de sereias
Meus sonos acalentou.
Ondas, levai-me convosco,
Que eu também sereia sou.
Eu não sou filha da terra,
Vivo triste nestas plagas;
Embalada sobre as vagas,
Só no mar quero viver.
Correi, vinde, ó minhas ondas.
A meus pés vinde gemer,
No regaço cristalino
Brandamente me tomai;
Aos plácios de meu pai
Vinde, vinde me levar.
Correi, ondas, pressurosas,
Levai a filha do mar.
E se alguém na terra ingrata
Sentindo loucos amores,
Meus encantos e favores
Insensato desejar,
Em torno a mim, bravas ondas,
Vinde em fúria rebentar.
Em solitário rochedo,
Batido pelas tormentas,
Ide, ó ondas turbulentas,
Ide longe me ocultar.
Rugindo ali noite e dia,
Guardai a filha do mar.
Sentada ao pé de um rochedo,
Com os pés na branca areia,
Assim cantava a sereia
A linda filha do mar.
E a onda mansa, gemendo,
Os pés lhe vinha beijar.
Pescador, que além vogava,
No seu batel escondido,
Absorto prestava ouvido
A tão saudoso cantar,
E a vela e o remo esquecia
Ouvindo a filha do mar.
III
PESCADOR
Não mais lamentes
Em tom magoado
Teu triste fado,
Filha do mar.
Vem a meu barco,
Nos braços meus
Aos lares teus
Te irei levar.
De novo os belos
Paços reais,
Entre os cristais
Irás saudar,
E sobre as finas,
Fulvas areias,
Entre as sereias
Irás cantar.
Embora sejam
Teus ermos lares
Entre os algares
Do fundo mar.
Sejam embora
Negro alcantil,
Que monstros mil
'Stão a guardar,
Onde as tormentas
Sempre batendo,
Com ronco horrendo
Vão rebentar.
Irei, se queres,
Agora mesmo,
Sem medo, a esmo
Te acompanhar.
Meu barco é leve,
Meu braço é forte,
E a própria morte
Sabe afrontar.
Só peço em paga
Da doce lida
Passar a vida
A te adorar,
E a teus joelhos
Sempre prostrado
Teu rosto amado
A contemplar.
Oh! vem comigo,
Vem pressurosa,
Vem, ó formosa
Filha do mar.
IV
Calou-se o barqueiro amante;
Mas depois ouviu, tremendo,
Um canto, que mais ao longe,
Mais ao longe foi morrendo.
A cantar e a fugir
A sereia ia dizendo:
SEREIA
Eu sou pérola das vagas,
Que nao sei, nem quero amar;
O meu peito é como a rocha,
Onde em vão esbarra o mar.
Mancebo, vai noutra parte
Teus amores suspirar.
Do que existe sobre a terra
Nada me pode agradar;
Só amo a Deus nas alturas,
E a liberdade no mar.
Mancebo, vai noutra parte
Teus amores suspirar.
V
Desta canção fugitiva
Os ecos ainda duravam,
E nas praias suspiravam
Entre os bramidos do mar;
E o pescador entre angústias
Sentia o peito estalar.
PESCADOR
Por que foges, branca fada
De formosura sem par?
Por que me escondes teu brilho,
Formosa estrela do mar?...
Ronca em torno a tempestade.
Meu barco vai soçobrar.
Só tu podes no meu peito
Uma esperança plantar;
E as tormentas, que me cercam,
Com tua luz aplacar.
Nestes medonhos abismos
Nao me deixes soçobrar.
Ferve o mar, o céu em chamas
Vem abismos aclarar;
Nestas águas desastrosas
Vai meu barco soçobrar.
Vem salvar-me por piedade,
Formosa estrela do mar.
VI
Longos dias se passaram;
Ninguém mais ouviu cantar
A linda filha das águas
Nem na praia, nem no mar.
E vivia o pescador
Triste e só a definhar.
Se ousava nas ermas praias
Seu queixoso canto alçar,
Só ouvia longe, longe
Uma voz a lhe bradar:
"Mancebo, vai noutra parte
Teus amores suspirar."
VII
Passaram mais dias, meses;
já cansado de pensar
O pescador sem
barco soltou ao mar.
Ei-lo sem norte e sem rumo
Nas ondas a resvalar.
Ei-lo que vai mar em fora.
Nas ondas do mar bravio
Seu amor louco e sombrio
Quer consigo sepultar.
Contra uma rocha empinada
Vai seu barco espedaçar.
Mas eis soa-lhe aos ouvidos
Voz celeste e maviosa,
Em toada lamentosa
Tristes coplas a cantar.
Aos acentos suspirosos
Cala a brisa, e geme o mar.
VIII
SEREIA
Sou moça e sou formosa;
Dos mares sou princesa;
Em graças e beleza
Jamais achei igual.
E vivo aqui sozinha,
Ai céus! para meu mal.
E vivo aqui sozinha
No seio de esplendores;
Ninguém quer meus amores
Ninguém me vem buscar.
E eu sou a mais formosa
Das filhas deste mar.
E eu sou a mais formosa
E a mais alva açucena,
Que sobre a onda serena
Balança o airoso hastil.
Mas nesta solidão
Que serve ser gentil?
Mas nesta solidão
Ninguém vem consolar-me;
E sempre a lastimar-me
Aqui morrerei só.
Ai triste de mim! triste!
Ninguém de mim tem dó.
IX
Ouvindo a canção chorosa
O barqueiro estremeceu,
E entregue a seus devaneios
O leme e a vela esqueceu
E com olhar desvairado
O horizonte percorreu.
Nem no mar, nem no rochedo
Vulto humano percebeu
E esta frase piedosa
Pelos lábios lhe tremeu:
"Esta triste, que assim chora,
É infeliz, como eu."
Depois firme e resoluto
Em pé na proa se ergueu,
E para às alheias mágoas
Juntar o queixume seu
Alçando a voz sobre as vagas
Desta sorte respondeu:
X
PESCADOR
Por entre as ondas bravias,
De mil tormentas batido,
Em busca de um bem perdido
Voga, voga, ó batel meu.
Voga!...um dia saberemos
Onde a ingrata se escondeu.
Houve um dia, uma sereia...
Oh! que linda ela não era!...
Porém tão ingrata e fera,
Que de amor me enlouqueceu.
Dizei, nuas penedias,
Onde a ingrata se escondeu.
Ela deixou-me, - a cruel! -
Entregue a negros pesares,
Lastimando sobre os mares
O triste destino meu.
Dizei-me, ó ondas sonoras,
Se ela de mim se esqueceu
Se nas asas do tufão
Devassando o mar profundo
Na raia extrema do mundo
A meus olhos se escondeu,
Neste barco aventureiro.
Lá mesmo voarei eu.
Se entre monstros marinhos
Lá no mais fundo dos mares,
Em cristalinos algares
Se oculta o retiro seu,
Em meu amor confiado
Lá também descerei eu.
Se entre rochas malditas,
Entre grossos vagalhões,
Defendidos por dragões
Seus palácios escondeu,
Mil mortes desafiando
Lá mesmo chegarei eu.
Por entre as ondas bravias
De mil tormentas batido
Em busca de um bem perdido
Voga, voga, ó batei meu.
Voga!...um dia saberemos,
Onde a ingrata se escondeu.
XI
SEREIA
Nestas praias solitárias
Que procuras, pescador?...
Vens buscar pérola finas,
E corais de alto valor?...
Se tais tesouros desejas,
Voga além, ó pescador.
Que estrela por estes mares
Te conduz, o pescador?...
Queres ser nauta valente,
Deste mares ser o senhor?...
Se tal ambição te ocupa
Passa além, ó pescador.
Os mistérios saber queres
Desta ilha, ó pescador?...
E deste asilo os segredos
Aos olhos do mundo expor?
Se é esse o desejo teu,
Vai-te embora, ó pescador.
Mas se perigos insanos
Afrontando sem pavor,
Nesta ilha solitária
Tu vens procurar amor
A meus braços sem detença,
Corre, voa, ó pescador.
XII
Na base da penedia
O vulto branco surdiu
De uma donzela formosa
Como igual nunca se viu.
Para lá o pescador
O barco seu impeliu.
Saltando na branca areia
Aos pés da bela caiu;
Mas ela com brando riso
Meigas frases proferiu,
Beijou-lhe a fronte incendida
E os alvos braços lhe abriu
O batel abandonado
No pego se submergiu,
E o ditoso par amante
Entre rochas se sumiu,
E por aquelas paragens
Nunca mais ninguém os viu.
Às vezes por horas mortas,
Pelas noites de luar
Ao largo vê-se um barquinho
Solitário a velejar.
Quem vai dentro não se sabe
Nem se vê ninguém remar.
Apenas ouve-se um canto,
Tão triste, que faz chorar;
E os pescadores, que o ouvem,
Começam logo a rezar,
Dizendo consigo: é ela,
É ela, a filha do mar!
Bernardo Guimarães
sexta-feira, 17 de junho de 2011
PRESSÁGIOS
Quando eu nasci, tocava o fogo
Na minha freguesia,
E um meu vizinho, que perdera ao jogo,
Golpeava as veias, quando eu nascia.
Chegando ao mundo, comigo vinha
Uma irmãzinha,
Pó que, mudado em flor, voltou logo a ser pó…
E eu comecei, chegando ao mundo, a ver-me só…
A linda gémea, que Deus me dera,
Logo morria, mal nascera,
Morria logo…Na freguesia, tocava a fogo…
Com tais avisos, com tais presságios,
Breve me afiz a padecer, sem protestar,
Ódios, tormentos, decepções, lutos, naufrágios,
Os idos, os de agora e os mais que hão-de chegar.
Eugénio de Castro (1869-1944)(in «Antologia», Introdução, Selecção e bibliografia deAlbano Martins, Imprensa – Nacional Casa da Moeda,Lisboa, 1987)
http://manuthinkerfree.blogspot.com/
Na minha freguesia,
E um meu vizinho, que perdera ao jogo,
Golpeava as veias, quando eu nascia.
Chegando ao mundo, comigo vinha
Uma irmãzinha,
Pó que, mudado em flor, voltou logo a ser pó…
E eu comecei, chegando ao mundo, a ver-me só…
A linda gémea, que Deus me dera,
Logo morria, mal nascera,
Morria logo…Na freguesia, tocava a fogo…
Com tais avisos, com tais presságios,
Breve me afiz a padecer, sem protestar,
Ódios, tormentos, decepções, lutos, naufrágios,
Os idos, os de agora e os mais que hão-de chegar.
Eugénio de Castro (1869-1944)(in «Antologia», Introdução, Selecção e bibliografia deAlbano Martins, Imprensa – Nacional Casa da Moeda,Lisboa, 1987)
http://manuthinkerfree.blogspot.com/
domingo, 12 de junho de 2011
João Moita
só Deus fica longe e acima da sua vontade:
então ele ama-o com o seu alto ódio
por esta inacessibilidade.
Rainer Maria Rilke
http://www.joaomoita.blogspot.com/
então ele ama-o com o seu alto ódio
por esta inacessibilidade.
Rainer Maria Rilke
http://www.joaomoita.blogspot.com/
quarta-feira, 18 de maio de 2011
ovovivíparo com laço
Em dia de peixe
Estaline chorou duas vezes segundo Béria
E a chuva acende rosas
Para depois
Por dentro daquele poema que algures ficou
Entre o firmamento e a proximidade do que possa respirar
Ou avistar
Calcinado como um corpo de palavras
Ardendo na casa da cinza
Que a história construiu como a sua sede
A chama regressada dos estendais a sul
Calcorreando aí tranquila
Na lenta forma das pálpebras cerrando-se
Entre duas chapadas de sol correndo a sombra
A formiga estala de cirandar nesse chão como um corpo ligeiro de patas de guindaste
Neandertal microscópico
Nem tudo teria de ser
Dinossauro
Sem estrutura óssea
Ela faz o pleno do ácido fórmico
Tem também utilidade
Como a criatura humana
Que também faz coisas com as mãos
Incluindo esfregá-las de contentamento sinistro
Uma ilimitada passagem do tempo sem cessar
Vai nas patas que parecem sobrevoar as migalhas de solo
Como aliás qualquer cronologia
Sem limites para trás nem para a frente
Parece correr no que elas correm
Assim a alforreca de um outro modo
Invertebrada nas águas boiando
Se alegra de estar
E o silêncio acamado dos séculos
Na obscuridade dos que não puderam falar
Os olhos diante da arma
O coração a trautear um suspiro final
Nem de rosas nem apenas de estalines
Se fazem os dias nem os da nostalgia
Não exactamente os mesmos
Que de trás nos vem mais o que possa ainda
Ser de cristal que a pura máquina da morte
A pior nostalgia
É a do que se não viveu
E estava lá
Naquela circunstância
E o desejo não colheu
Nos cenários da rotina
E em horário nobre
As criaturas remoem decisões frustradas
E tentam pinceladas de riso
Pelas paredes acima
Daquilo de que é feito o que se mastiga
Afinal não há frestas na opacidade do real
E a asfixia
Chega por muitas portas fechadas
Como uma cor única
Mas vem mais daquelas que escancaradas só trazem merda
Manuel Ramos Mora
Estaline chorou duas vezes segundo Béria
E a chuva acende rosas
Para depois
Por dentro daquele poema que algures ficou
Entre o firmamento e a proximidade do que possa respirar
Ou avistar
Calcinado como um corpo de palavras
Ardendo na casa da cinza
Que a história construiu como a sua sede
A chama regressada dos estendais a sul
Calcorreando aí tranquila
Na lenta forma das pálpebras cerrando-se
Entre duas chapadas de sol correndo a sombra
A formiga estala de cirandar nesse chão como um corpo ligeiro de patas de guindaste
Neandertal microscópico
Nem tudo teria de ser
Dinossauro
Sem estrutura óssea
Ela faz o pleno do ácido fórmico
Tem também utilidade
Como a criatura humana
Que também faz coisas com as mãos
Incluindo esfregá-las de contentamento sinistro
Uma ilimitada passagem do tempo sem cessar
Vai nas patas que parecem sobrevoar as migalhas de solo
Como aliás qualquer cronologia
Sem limites para trás nem para a frente
Parece correr no que elas correm
Assim a alforreca de um outro modo
Invertebrada nas águas boiando
Se alegra de estar
E o silêncio acamado dos séculos
Na obscuridade dos que não puderam falar
Os olhos diante da arma
O coração a trautear um suspiro final
Nem de rosas nem apenas de estalines
Se fazem os dias nem os da nostalgia
Não exactamente os mesmos
Que de trás nos vem mais o que possa ainda
Ser de cristal que a pura máquina da morte
A pior nostalgia
É a do que se não viveu
E estava lá
Naquela circunstância
E o desejo não colheu
Nos cenários da rotina
E em horário nobre
As criaturas remoem decisões frustradas
E tentam pinceladas de riso
Pelas paredes acima
Daquilo de que é feito o que se mastiga
Afinal não há frestas na opacidade do real
E a asfixia
Chega por muitas portas fechadas
Como uma cor única
Mas vem mais daquelas que escancaradas só trazem merda
Manuel Ramos Mora
sábado, 23 de abril de 2011
Ver claro
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede
quarta-feira, 13 de abril de 2011
sábado, 26 de março de 2011
quarta-feira, 23 de março de 2011
Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora
Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora
Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.
Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo -
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?
O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?
Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?
Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.
Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal.
escrito em 05-06-1922
Alberto Caeiro, in"Poemas Inconjuntos"
http://pt.wikisource.org/wiki/Wikisource:P%C3%A1gina_principal
http://pt.wikisource.org/wiki/Dizem_que_em_cada_coisa_uma_coisa_oculta_mora
http://yousouraposa.blogs.sapo.pt/
http://relatividadedaspalavras.blogspot.com/
http://www.earthtimes.org/
http://twitter.com/Streilha
http://twitter.com/sara_marques
Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.
Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo -
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?
O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?
Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?
Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.
Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal.
escrito em 05-06-1922
Alberto Caeiro, in"Poemas Inconjuntos"
http://pt.wikisource.org/wiki/Wikisource:P%C3%A1gina_principal
http://pt.wikisource.org/wiki/Dizem_que_em_cada_coisa_uma_coisa_oculta_mora
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terça-feira, 22 de março de 2011
Equinócio da Primavera
21 de Março, é dia do Equinócio da Primavera, da Árvore e Dia Mundial da Poesia.
O FIM DA POESIA
Faltas tu nesta paz,
Sob este sol de Março e a alegria dos pássaros.
Faltas tu nesta paisagem desamada,
Para eu poder entrelaçar os dedos da conversa na tua mão atenta, descarnada.
Faltas tu nestes dias lindos por fora,
Mas carregados de ódio nas costuras das ruas sem vigor.
(Que não rimam com amor)
Faltas tu nas ideias solitárias
Em deambulações contrárias à mole humana
Faltas tu nesta Arca ondulante em viagem de procelas, derrapante.
Nesta Arca, onde apenas deveria haver números pares
E lugares preenchidos.
Não o vazio.
Faltas tu, mas ficou o teu lugar,
A tua marca.
E a poesia sussurra-me ao ouvido:
As metáforas morreram,
Já não são úteis os símiles de Torga.
Porque as filhas cortam o cabelo
E as videiras há muito que estão mortas.
É esta a realidade. Acolhe-a!
Ou perderás, em vão, a tua alma.
[Gabriela Correia ]
via
http://aijesus.blogspot.com/
http://www.youtube.com/watch?v=8Sj5_WITMpA&feature=player_embedded
O FIM DA POESIA
Faltas tu nesta paz,
Sob este sol de Março e a alegria dos pássaros.
Faltas tu nesta paisagem desamada,
Para eu poder entrelaçar os dedos da conversa na tua mão atenta, descarnada.
Faltas tu nestes dias lindos por fora,
Mas carregados de ódio nas costuras das ruas sem vigor.
(Que não rimam com amor)
Faltas tu nas ideias solitárias
Em deambulações contrárias à mole humana
Faltas tu nesta Arca ondulante em viagem de procelas, derrapante.
Nesta Arca, onde apenas deveria haver números pares
E lugares preenchidos.
Não o vazio.
Faltas tu, mas ficou o teu lugar,
A tua marca.
E a poesia sussurra-me ao ouvido:
As metáforas morreram,
Já não são úteis os símiles de Torga.
Porque as filhas cortam o cabelo
E as videiras há muito que estão mortas.
É esta a realidade. Acolhe-a!
Ou perderás, em vão, a tua alma.
[Gabriela Correia ]
via
http://aijesus.blogspot.com/
http://www.youtube.com/watch?v=8Sj5_WITMpA&feature=player_embedded
quinta-feira, 17 de março de 2011
Poesia portuguesa
Estigma
Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.
Ary dos Santos
http://portodeabrigo.do.sapo.pt/
Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.
Ary dos Santos
http://portodeabrigo.do.sapo.pt/
O navio de espelhos
O navio de espelhos
O navio de espelhos
não navega cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
Mário Cesariny
http://portodeabrigo.do.sapo.pt/cesariny13.html
http://www.youtube.com/watch?v=gbT8l8YyORo&feature=player_embedded
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